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IB Freight - 17/01/2017

Valorização do real faz indústria desacelerar processos de nacionalização de produção

 

No primeiro trimestre de 2016 a Metalplan, fabricante de máquinas e equipamentos, intensificou um processo de substituição de importações iniciado no ano anterior. O dólar forte, que chegou a ultrapassar os R$4,00, conta o diretor comercial da empresa, Edgard Dutra, incentivou a empresa a tirar do papel planos de produzir componentes que até então nunca tinha fabricado, como alguns trocadores de calor.

A empresa também voltou a fabricar válvulas, o que não fazia desde 2000. Juntos, os dois componentes representam 40% do custo de matéria-prima da empresa. A ideia era, aos poucos, passar a produzir internamente os trocadores de calor de toda linha de compressores da empresa. A produção própria havia se tornado viável devido ao câmbio e trazia benefícios como vantagem logística e garantia de padrão de qualidade.

O processo, conta Dutra, se intensificou no primeiro trimestre de 2016, mas foi suspenso logo depois. A nacionalização de componentes esfriou à medida que o real se valorizou e que as oscilações cambiais se intensificaram. Hoje, com dólar na órbita dos R$ 3,20, ele não vê perspectivas de retomar o programa. “Com dólar perto de R$ 3,60 esse processo de nacionalização me traz mais vantagens do que a importação. Com o dólar a R$ 3,20, fica empatado”, calcula Dutra. “Não acredito que o dólar ficará abaixo disso e não perderemos com o que já foi feito. Mas para continuar precisaríamos investir.”

Para analistas, o caso da Metalplan não é isolado. A reação da economia, mesmo que muito lenta, deve elevar as importações este ano. Esse processo deve ser potencializado pela valorização do real e pode contribuir para substituir a produção nacional, revertendo processos de nacionalização iniciados no ano passado.

Rafael Cagnin, economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), explica que o processo de substituição da produção nacional, nos casos em que ocorreram, deve ser revertida ou suspensa mais rapidamente em cadeias de maior valor agregado, no qual a substituição de importação requer investimento. “Isso torna mais importante ainda a utilização do câmbio como estratégia para o desenvolvimento econômico. As empresas precisam ter confiança no patamar de câmbio.”

Depois que a queda de importações contribuiu de forma relevante para os superávits da balança comercial em 2015 e 2016, a expectativa para este ano é de início de reversão desse quadro, diz Cagnin.

A evolução das empresas importadoras já sinaliza mudança. No ano passado as empresas importadoras somaram 37.778, uma redução de 10,9% em relação a 2015 que refletiu a queda de 20% no valor total dos desembarques brasileiros.

Apesar da queda no total do ano, porém, os números apontam uma reversão da tendência de redução do número de empresas importadoras ao fim de 2016, diz José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). O número de empresas importadoras voltou a aumentar nos últimos três meses do ano passado na comparação com igual período de 2015. De outubro a dezembro de 2016 as importadoras totalizaram 3.199 empresas, 13% a mais contra mesmos meses do ano anterior. Os dados são do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic).

As estatísticas também mostram desaceleração na queda das importações no decorrer do ano. No primeiro semestre de 2016, o valor total importado pelo país caiu 28,9% em relação a igual período do ano anterior. No segundo semestre a queda foi de 9,9%. No ano a redução acumulou 20%.

Os dados do Mdic, em conjunto com a expectativa de uma reação positiva, embora lenta, da economia doméstica, indicam que esse processo de reversão deve se manter e que as importações devem ser retomadas este ano, diz Castro. Os dados da balança comercial do início do ano, destaca, corroboram isso.

A média diária de importação, segundo o Mdic, alcançou US$560 nas duas primeiras semanas de 2017, o que representa um aumento de 8,5% na comparação com igual período do ano passado. São números iniciais, pondera Castro, mas vão no mesmo sentido dos sinais que já foram dados. Ele ressalta que em dezembro do ano passado as importações já cresceram 9,3% contra mesmo mês de 2015. Isso, diz ele, pode ser sinalizador de um início da tendência de substituição da produção nacional. Ele acredita, porém, que o real mais valorizado tem sido por enquanto o maior incentivo à reação dos desembarques. “As importações respondem rapidamente ao câmbio.”

Para 2017 a AEB projeta elevação de 5,2% nas importações totais, com alta puxada principalmente por intermediários e bens de consumo, com crescimento respectivo de 6,5% e 5,7%.

As importações, explica Cagnin, têm grande elasticidade direta em relação ao nível de atividade. “Mesmo com reações positivas lentas da economia, é de se esperar que haja um aumento das importações este ano”, diz ele. Outro fator que deve potencializar esse fenômeno é a taxa de câmbio, com real mais valorizado em relação ao dólar. O câmbio, lembra ele, traz mudança de preços relativos que torna a importação mais competitiva. “Isso, combinado com um nível de atividade maior eleva ainda mais as importações e é possível que resulte em um processo de substituição da produção doméstica.”

Cagnin destaca que essa substituição não deve ficar fora da estratégia empresarial este ano. “Num ambiente de compressão de margens, a empresa usará toda redução de custos e folga possível para recompor a margem.”

O economista do Iedi lembra que na primeira metade do ano passado houve indícios de um processo de substituição de importação em segmentos como têxteis e calçados. “Esse fenômeno foi conjuntural, por conta da oportunidade dada pelo câmbio, e deve ser revertido porque não se apoiou em mudanças estruturas, como a interligação de novos elos da cadeia produtiva.”

 

Fonte: Valor Econômico